(NR-6): A EPIZAÇÃO DA SEGURANÇA DO TRABALHO

Sábado, 13 Agosto 2016 03:42
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Este artigo retrata uma triste realidade que vem acontecendo em nosso país: o fenômeno da EPIzação da Segurança do Trabalho ou, como chamam alguns, a Cultura do EPI.

 

No ano passado, durante um evento, tive o privilégio de conhecer um Engenheiro professor da Universidade de Lisboa, que dentro do contexto da conversa estava nos contando algo que aconteceu lá na Europa. Ele assistindo pela TV, viu uma matéria jornalística que estava falando sobre um acidente com trabalhadores que estavam trabalhando em uma vala, houve um desabamento e eles foram soterrados. Ai a repórter perguntou para um dos responsáveis pela obra, parece que um Engenheiro, se eles não haviam tomado medidas de proteção. Ele respondeu que os trabalhadores estavam usando capacete.

Bom, seria engraçado se não fosse trágico. No Brasil isso também acontece com muita freqüência. Por exemplo, em um trabalho em altura, veste-se o trabalhador com todos os devidos EPI's, capacete, cinto de segurança, talabarte e manda ele subir para fazer o trabalho. Chegando lá em cima ele não tem um ponto de ancoragem. Ninguém providenciou isso. Então ou ele improvisa, se prendendo em algum lugar frágil e que não vai segurar a queda dele, ou ele não usa. Ele vai ficar lá vestido porque a regra é essa mas não tem proteção nenhuma na realidade.

Muitos profissionais e empresas adotam o uso do EPI como primeira e única solução para a segurança dos trabalhadores. Bom, em palestras, as vezes em aulas, eu costumo ser muito enfático em dizer que o EPI deve ser o último recurso a ser adotado para proteção dos trabalhadores. É claro que você pode usar EPI em ambientes seguros onde se utiliza mais por uma questão de redundância só para aumentar a segurança.

 


Existem entre os conceitos de SST uma ordem de prioridades que é a seguinte: 

 

Não coloque o trabalhador em risco

Mas isso em ambiente de trabalho é praticamente impossível, sempre vai ter alguma fonte de perigo, algum risco com o qual ele vai ter que conviver. E se não dá para evitar expor ele aos riscos, então que se adote medidas de proteção coletiva para transformar o ambiente em um local seguro.  Agora se essas medidas coletivas não forem suficientes ou elas ainda não forem instaladas então você apela para os EPI's. É por isso que eu costumo dizer com tanta ênfase que o EPI é o último recurso a ser considerado quando você está lá planejando a segurança dos trabalhadores.

Para explicar isso melhor costumo utilizar como exemplo a construção civil. Vamos imaginar que tem lá um prédio em construção e já alcançou a laje do décimo andar. Então no nono andar você até já tem teto mas também é só porque não tem paredes, tem vãos abertos no chão que são buracos aguardando para a instalação de equipamentos, tem a caixa do elevador que não tem elevador... ou seja, o risco de um trabalhador atuando lá cair, levar uma queda de 30 metros, é muito grande.

Qual seria o ideal ? não colocar ninguém nessas condições. Mas não tem como, não tem robô pra fazer isso, não existe opção. É preciso colocar uma equipe lá na laje do nono andar para poder terminar a fase da obra. 

Então nós vamos colocar um guarda-corpo, que é uma barreira física, no entorno de toda a laje para não deixar que ninguém caia da borda pra fora. Aqueles buracos que estão abertos nós vamos colocar um tampão fixo, para que não seja retirado acidentalmente, e sinalizado para as pessoas saberem qual a função daquele tampão. Com relação a caixa de elevador, como não tem elevador e não tem porta, e existe um vão de 40 metros de profundidade, colocaremos uma porta provisória que vai ficar lá até a instalação do elevador e da porta definitiva do elevador. Ou seja, nós anulamos os riscos que existiam de queda e nessa condição já é possível liberar a minha equipe para trabalhar com segurança.

 


Mas ai surge uma pergunta:  e quem vai instalar isso tudo ?

Pois quem vai instalar um guarda-corpo está a 1 passo de cair de 30 metros. Quem for colocar aquele tampão provisório nos vãos que estão no chão, idem. Quem vai instalar a porta provisória da caixa do elevador também está correndo risco. Neste caso, o que precisamos fazer ? amarrar o trabalhador.  Fazer ele vestir um cinturão de segurança e amarrá-lo de alguma forma. 

Pois quem vai instalar um guarda corpo está a 1 passo de cair de 30 metros. Quem for colocar aquele tampão provisório nos vãos que estão no chão, idem. Quem vai instalar a porta provisória da caixa do elevador também está correndo risco. Neste caso, o que precisamos fazer ? amarrar o trabalhador.  Fazer ele vestir um cinturão de segurança e amarrá-lo de alguma forma. 

 

Instalar uma linha de vida horizontal, onde ele possa colocar o talabarte dele

 

Colocar uma linha de vida vertical, para ele pode instalar um trava-quedas deslizante 

 

ou colocar acima dele um trava-quedas retrátil

 

 

 ou prende-lo a um sistema de restrição. Ele fica preso em algum ponto atrás dele
e isso restringe o movimento dele, não deixa que ele se aproxime da zona de perigo

  

De alguma forma  teremos que utilizar as medidas de proteção individual para garantir a segurança desses que estão instalando as proteções coletivas.

Isso é para tentar justificar quando eu falo que os EPIs devem ser a última das alternativas quando se planeja um sistema de Segurança para trabalhadores. Mas como já foi dito anteriormente, não é o que vem acontecendo no país.

 

O contraditório

E nós temos uma coisa curiosa sobre esse tema. É uma contradição, quase um paradoxo.

De um lado nós temos essa tal Cultura do EPI ou EPIzação da Segurança do Trabalho e de outro, considerando o cenário nacional, a maioria dos trabalhadores não tem acesso a EPIs. Exemplificando, e até cabe colocar o Brasil nesse exemplo, é como quando você tem de um lado a miséria, gente morrendo de fome, e do outro um problema sério de saúde pública que é a obesidade. A gente vive isso.

Agora vamos dizer que, de forma consciente, depois de uma boa avaliação de riscos que foi feita, a opção for pelo uso de EPIs então surge uma nova questão, que é a seguinte:  quantos profissionais, quantos gestores, estão de fato capacitados e tem domínio técnico para fazer uma boa avaliação de uma condição de trabalho em altura e depois especificarem qual sistema ou equipamentos devem ser utilizados para resolver os riscos existentes?

Muito poucos. Talvez isso aconteça porque na própria formação básica, na formação dos Técnicos, Tecnólogos, Engenheiros, assuntos muito específicos como NR-35, NR-33 etc, não são abordados com profundidade. Então um TST ou EST ele sai do curso de formação dele as vezes até tendo que já encarar a gestão de uma rotina de trabalhos em altura sem saber quase nada de altura. Eu sei que vocês dirão, calma lá, um curso técnico, um curso de pós-graduação em Segurança do Trabalho não vai formar o profissional, vai informar, ele vai se formar na verdade atuando no mercado de trabalho. E um bom profissional consciente tem que correr atrás da informação, se especializar, para aprender mais e etc. Ok.

Mas aí temos outro problema, onde ele vai buscar esse tipo de informação? porque nós temos uma quantidade muito pequena de instrutores hoje com essa bagagem de conhecimento que possam atuar como multiplicadores desse conhecimento técnico. Então tem pouca gente qualificada pra formar outros instrutores ou professores. Não temos literatura específica. Eu sei que falar assim soa como exagero mas o fato é que a gente não tem mesmo nenhuma obra de referência ou conjunto de obras que possam dar a informação que um profissional queira para se tornar um gestor dessa área, ou um professor desse assunto.

E olha como a coisa não é simples, olha como o tema é complexo. Se alguém disser assim, olha, fulano vai ter que subir lá e vai ter que executar um trabalho em um local que existe risco de queda. E ai alguém determinou que só vai liberar o trabalho se entregarem pra ele um cinturão de segurança e um talabarte que é para garantir que ele não caia lá de cima.

Mas qual modelo de cinturão de segurança e qual o modelo do talabarte que vai fazer conjunto com esse cinto?

A coisa não é tão simples.

 

Pode ser que tudo que precisemos seja um cinturão de segurança tipo pára-quedista,
do modelo mais simples, que vai nos oferecer só o elemento de engate dorsal,
que fica nas costas onde vamos conectar o trava-quedas, o talabarte

 

ou tenhamos situações em que seja conveniente ter um modelo
que tenha também o elemento de engate frontal

 

ou pode ser que precisemos de um modelo que já venha com cinto abdominal
e os elementos de engate para posicionamento, que é onde instalamos o talabarte posicionamento

 

ou pode ser que venhamos a trabalhar em espaços confinados
e o modelo precisa nos oferecer os engates de ombros

 

ou pode ser que precisemos de um modelo para trabalhos suspensos que nos dê
o elemento de engate dorsal (1), o elemento de engate frontal (2),
ambos destinados a retenção de quedas mas também precisamos
de um elemento de engate pra suspensão (3) e o cinto abdominal
e os elementos de engate para posicionamento (4)

 

 

 

ou talvez um modelo que nos ofereça todos esses recursos

E ai vem a questão: qual será nossa melhor opção ao adquirir um cinturão?
qual o melhor modelo?

 

E a resposta é: aquele que atende a nossa necessidade. Nem mais nem menos.

 

E quanto ao talabarte? 

Vamos precisar de um talabarte único, com absorvedor de energia? (1); 
ou de um talabarte duplo, em formato de Y, com absorvedor de energia? (2);
ou de um talabarte duplo, em formato de V com 2 absorvedores independentes ? (3);
ou de um talabarte retrátil? (4); ou de um talabarte de posicionamento? (5);
ou de um talabarte de restrição que sequer precisa ter o absorvedor de energia? (6)

 

E a coisa não para por ai. Ainda tem as opções de capacete, trava-quedas retráteis e trava-quedas deslizantes, temos um conjunto grande de equipamentos e acessórios que não são  considerados EPIs.


Eu utilizei o tema NR-35, trabalho em altura, como um exemplo, porque os problemas que foram apontados aqui acontecem com várias outras rotinas de trabalho, estão relacionados com várias outras normas regulamentadoras. O problema maior é pegar assuntos tão complexos como esse e trata-lo de forma muito simples. É claro que não se espera que se complique as rotinas de trabalho, o que se espera é que a gente dentro do possível simplifique as rotinas de trabalho. O problema  maior é quando essa simplificação acontece pelo desconhecimento técnico.

O que tentei foi mostrar a complexidade do tema e chamar a atenção de que nós precisamos de profissionais capacitados para fazerem a gestão dessas rotinas. Nós precisamos criar literatura, melhorar a qualidade dos nossos cursos, precisamos formar os nossos instrutores e padronizar a qualidade desse treinamento. 

 

 

Lido 6972 vezes Última modificação em Terça, 30 Agosto 2016 23:10

6 comentários

  • Link do comentário  Adelson de Almeida Sábado, 20 Maio 2017 18:03 postado por Adelson de Almeida

    Boa tarde...

    Professor,
    Trabalho em cursos de formação de tst, e vejo este problema da má formação dos futuros técnicos segura do trabalho, um dos grandes gargalos é que há uma pouca leitura das normas de segurança, aí pode esta o ponto chave da situação, quanto ao uso do epi, a NR estabelece que o uso do epi é a ultima das medidas a serem adotas. Infelizmente precisa mudar muito a questão da formação. Outro ponto que é frequente ver são profissionais que não tem formação na area de segurança ministrando aulas.

  • Link do comentário marquinhos Terça, 07 Fevereiro 2017 00:42 postado por marquinhos

    valeu professor, grande aula

  • Link do comentário camargo tst Quinta, 15 Setembro 2016 06:35 postado por camargo tst

    bom trabalho!!! me ajudou no curso de tst

  • Link do comentário frança Quarta, 31 Agosto 2016 17:27 postado por frança

    obrigado pelas informações amigos

  • Link do comentário rubens tst Quarta, 17 Agosto 2016 18:22 postado por rubens tst

    muito bom, parabéns pelo artigo!

  • Link do comentário sergi46 Terça, 16 Agosto 2016 23:09 postado por sergi46

    ótimas colocações....

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