SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO: AGENDA 2015

Sábado, 24 Janeiro 2015 21:12
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O que esperar para SST em 2015?

Poderá haver significativo aumento de riscos de doenças e acidentes. Estaríamos entrando em uma fase de “desestruturação produtiva”? Neste post vamos analisar porque os riscos podem aumentar e como os profissionais do SESMT poderão lidar com os possíveis cenários.





O CENÁRIO ECONÔMICO

Nas décadas de 90 e 2000 havia uma sistemática crítica à chamada “reestruturação produtiva” um conjunto de políticas públicas do assim chamado pensamento neoliberal, que incluía flexibilização das leis do trabalho, privatizações, abertura comercial e a proposição de reformas, principalmente a tributária. As críticas sustentavam que essas políticas, chamadas neoliberais, iriam provocar a precarização de indicadores sociais, com subsequente incremento de doenças e acidentes. Entretanto, as previsões catastróficas não se concretizaram e o país experimentou um avanço excepcional em sua economia, alcançando níveis de emprego e desenvolvimento que tornaram o país a 5ª. Economia mundial.

No período de Dilma Roussef o comando da economia no país foi substituído pelos principais críticos das mencionadas políticas, da “reestruturação produtiva”, passando-se a adotar-se políticas que deveriam corrigir aquela inflexão “neoliberal”.

Vê-se agora que o resultado dessas medidas acabou em uma espécie de “desestruturação produtiva”, resultando em grave crise econômica. Há agora inclusive uma tentativa de retorno à política neoliberal com a nomeação de um ministro ligado a esse pensamento.

A "DESESTRUTURAÇÃO" PRODUTIVA: O CAPITAL

Em 2015 a conjuntura econômica é ruim: o Governo já anunciou que o PIB poderá ficar a mesma coisa do ano passado, o que já vinha sendo péssimo. Os juros aumentam, o desemprego dispara, o ambiente financeiro é de juros altos e de restrição de investimentos. As empresas estatais estão em crise, enquanto que as que foram privatizadas estão com boa saúde financeira. A esse cenário associou-se agora a progressiva escassez de energia elétrica e água nas principais regiões do país, significando aumento de custos industriais. O ritmo de consumo da população também sofrerá alguma redução. Não resta dúvida de que haverá rebatimento da crise para os trabalhadores e consequentemente novos desafios para os profissionais em SST.


O TRABALHO E A PRODUTIVIDADE

A partir de 2011 a Previdência Social passou a publicar estatísticas com aumentos de acidentes, principalmente os de trajeto, com gastos de mais de 70 bilhões de reais. Além do desemprego, recente Estudo da Fundação Getúlio Vargas, publicado na Folha de São Paulo, aponta porque a produtividade  do trabalhador brasileiro é uma das mais baixas, sendo algumas razões já conhecidas há bastante tempo e que acabaram se somando aos desacertos da política econômica atual:

PROBLEMA

Os trabalhadores são menos educados

Os trabalhadores são menos qualificados

A economia é ineficiente

Má regulação e burocracia

Barreiras comerciais

Adoção de tecnologias estrangeiras

Estrutura tributária

Intervenções do Governo no mercado e preços

Sobrevivência de firmas pouco produtivas (informalidade)

Barreiras comerciais

Crédito subsidiado para algumas empresas

 

O resultado é a concentração excessiva de trabalhadores em empresas ineficientes e com pouco dinamismo.

É certo que em vários setores a produtividade mais que dobrou em 10 anos mas acabou havendo uma regressão como resultado das políticas públicas em vigor. Além disso, na Educação, o Brasil ocupa posições vergonhosas, o ensino fundamental está abandonado, o ensino médio é uma tragédia, o ensino técnico teve uma expansão tímida e muitos cursos superiores são simplesmente uma farsa.

A legislação brasileira por sua vez estimula a rotatividade, não incentivando que as empresas invistam na qualificiação dos trabalhadores.

Com a precarização dos indicadores econômicos não é difícil prever a precarização das condições e meio ambiente de trabalho, como tem ocorrido de forma cíclica na história (veja a Aula 1 no site) e assim temos um cenário para aumento dos riscos de doenças e acidentes.


ALTERNATIVAS EM SST: GESTÃO E MANUTENÇÃO

Sob esse cenário que perturba tanto o capital quanto o trabalho, as alternativas para a SST podem se resumir em duas palavras: gestão e manutenção. Embora o desemprego esteja às portas do país ao se iniciar 2015, algumas profissões vão se manter em alta e é a hora de o pessoal do SESMT aproveitar essa janela de oportunidade para reciclar conhecimentos e aprimorar a especialização.
                                                                              

GESTÃO

Uma consultoria internacional selecionou 11 cargos com alta demanda por mão de obra já a partir deste ano. São posições de média e alta remuneração, que exigem formação técnica, acadêmica e experiência profissional. Veja abaixo um Quadro com algumas das profissões que serão mais valorizadas em 2015, havendo uma clara ênfase nas atividades de Gerência (Gestão):

Gerente de Produção

Gerente de Logística

Engenheiro de Instalação

Gerente de Embarcações

Gerente de Planejamento de Tributário

 

A esse Quadro acrescentariamos a gerência do SESMT, responsável pela Gestão de Riscos, particularmente na elaboração do PPRA e do PCMSO (Engenheiros, TST e Médicos do Trabalho).

Um outro problema é a percepção dos trabalhadores nesse cenário. Pesquisa divulgada na Internet, que publica avaliações anônimas de funcionários sobre as empresas em que trabalham, mostra que os existem 10 situações de insatisfação:

01

Baixos salários

02

Liderança fraca

03

Falta de qualidade de vida

04

Burocracia

05

Falta de reconhecimento

06

Trabalho não reconhecido

07

Benefícios ruins

08

Ausencia de plano de carreira

09

Carreira estagnada

10

Processos, sistemas e Ferramentas ruins

 

Muito desses problemas fazem parte da Agenda de qualquer SESMT ou da Gestão de Riscos.


MANUTENÇÃO

Em segundo lugar, supondo que novos investimentos poderão não se concretizar, e as necessárias inovações tecnológicas no parque industrial poderão não ocorrer, o mais certo é focar na manutenção.

Ou seja, manter o emprego e manter a máquina, mesmo obsoleta ou que ainda pode render, e investir na recuperação e manutenção do que estiver disponível na planta da empresa. Para isso o profissional do SESMT poderá servir como um consultor de primeira linha. Ao invés de esperar por um upgrade em máquinas e equipamentos, ou para alguma inovação tecnológica que não vai dar para implementar, é melhor contar e melhorar com o que já existe, criando alternativas para minimizar o risco. As empresas tendem a buscar profissionais que saibam gerar ganhos de eficiência e definir novas estratégias para redução de custos e prevenção de doenças e acidentes. As decisões do pessoal do SESMT no sentido de adaptar-se aos novos tempos, mesmo trabalhando com máquinas obsoletas ou que ainda sejam funcionais, poderá ter um significativo impacto na economia da empresa. Em suma, criar um sistema de gestão que possa contemplar as necessidades de sua empresa.

SISTEMAS DE GESTÃO

Um Sistema de Gestão consiste em uma uma ferramenta lógica, flexível, que pode ser adequada à dimensão e à atividade da organização e centrar-se em perigos e riscos de caráter genérico e específico. O principal aspecto dos sistemas de gestão modernos é o foco na melhoria contínua. Melhorar o que já existe envolve contemplar desde as necessidades simples de uma pequena empresa gerindo um único processo produtivo, no qual os perigos e os riscos sejam de fácil identificação, a atividades de múltiplos riscos como o setor da construção civil e obras públicas, a mineração, energia nuclear ou a fabricação de produtos químicos.

O Sistema pode empregar técnicas de segurança baseadas em comportamentos, melhor avaliação de riscos de segurança e saúde e melhores métodos de verificação. A Gestão implica ainda na avaliação de tendências e nas inspeções periódicas. Esses indicadores de tendência – todos facilmente obtidos por observações realizadas nos locais de trabalho – poderá dizer a você o estado real de seu programa de segurança. Fica a seu critério determinar o porque em relação a comportamentos e desencadear ações de acordo com as mudanças desejadas. Veja publicação do Blog NRFACIL sobre o PDSA como um método de gestão simples e prático.


EXEMPLO PRÁTICO

Cito um exemplo prático: uma empresa de beneficiamento de madeira, no Pará, tentava reduzir o custo de pagamento de adicional de insalubridade visto que o ruído calculado pelos profissionais do SESMT era insalubre, e cobria um grande contingente de trabalhadores. 2 Técnicos de Segurança da empresa sugeriram um dispositivo de enclausuramento de uma máquina que trabalhava com pranchas de madeira (plaina). A máquina recebia uma peça de madeira de um lado e liberava a peça trabalhada no lado oposto. Durante a operação, a máquina emitia um ruído intenso e insalubre.


na foto, em primeiro plano, o trabalhador com uma prancha que é introduzida em uma abertura;
vê-se uma janela de vidro da cabine onde está a Plaina e o técnico medindo o ruído com um decibelímetro

Os técnicos bolaram um sistema em que toda a máquina ficava enclausurada, com peças de madeira da própria empresa, tendo aberturas apenas nos segmentos de entrada e saída da madeira. Incluiram revestimento na estrutura com material de isolamento acústico de baixo custo, icluindo vidro. Após esse trabalho, os técnicos do Ministério do Trabalho foram chamados para medir o nível de ruído. Fizemos parte da perícia e encontramos níveis de ruído que eliminavam a insalubridade. Mesmo assim, houve uma recomendação do Ministério do Trabalho no sentido de a empresa retirar gradualmente o pagamento do adicional a fim de minimizar o impacto econômico para os trabalhadores. Com isso, a empresa obteve significativa economia na folha de pessoal e os trabalhadores, mesmo ganhando menos do que antes, tiveram a garantia de uma menor exposição ao ruído. 


 

Lido 9949 vezes Última modificação em Segunda, 26 Janeiro 2015 16:05
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